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Pain of Salvation – Carioca Club – São Paulo/SP – 04/06/15

Postado 12 de junho de 2015 às 21:11

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Texto e fotos por Evandro Camellini

Quem acompanha o cenário musical mais de perto, certamente conhece Daniel Gildenlöw. Comumente chamado de gênio, pela sua extrema capacidade de composição e interpretação dessas composições, Daniel é admirado por muitos que nem mesmo seguem sua banda, o Pain of Salvation. E, por muito pouco, o mundo não perdeu esse super astro ano passado. Acometido por uma doença raríssima, chamada fascite necrosante, que para resumir, na prática consiste de uma bactéria que literalmente come a pessoa de dentro para fora, seu quadro rapidamente evoluiu para crítico. Quatro meses fora de combate, que pareceram quatro anos para quem acompanhava a evolução do quadro. Poucos não foram os que temeram o pior. E, caso ele se recuperasse, quais seriam as sequelas? Seria possível que Mr. Gildenlöw retomasse a carreira, voltasse às turnês, continuaria presenteando a todos com sua genialidade? Para a surpresa de muitos, inclusive do próprio, a resposta para todas as dúvidas e questionamentos foi sim! Totalmente recuperado, ele e sua banda não só soltaram um novo álbum, Falling Home, como também saíram em tour mundial para retomar seu lugar de direito, os palcos! E foi na tarde de feriado do último dia 04 de junho que tivemos a chance de conferir como Daniel e sua trupe estavam após esse período. A abertura ficou a cargo do Seventh Seal.

O evento, originalmente anunciado para ter suas portas abertas as 17h, com a apresentação do Seventh Seal agendada para as 18h20, não teve como cumprir seu horário devido a um atraso no voo que trouxe a banda do Paraná, onde havia se apresentado na noite anterior. Devido a isso, a equipe e os músicos chegaram ao local já além do horário anunciado, o que sinalizava que o atraso poderia ser grande. Como o Carioca é uma casa compartilhada com outros gêneros, logo, recebe seguidos eventos, existe um horário limite para que a mesma seja entregue. O que fazia a todos temerem por possíveis cortes no set list. Cheguei ao local exatamente as 17h30, e a primeira coisa que me saltou a vista foi o tamanho enorme que estava a fila. Esperávamos um bom público, mas aquilo sinaliza facilmente para uma casa cheia ou próximo a isso. Já dentro da casa, era possível perceber a movimentação no palco atrás das cortinas, que levava a crer que a correria para que tudo se ajustasse estava grande! E então, por volta de 18h30, com incríveis apenas dez minutos de atraso, a abertura se iniciava.

O Seventh Seal, para quem desconhece, conta em sua formação com Tiago Claro em uma das guitarras, e este atende também pela função de produtor do show. Como contratante da atração principal nas duas últimas tours por aqui, recebeu o convite da própria para que sua banda se apresentasse no evento. Infelizmente, os imprevistos não permitiram que a festa fosse verdadeiramente aproveitada pelo anfitrião. O show contou com apenas três músicas, para que o horário pudesse ser cumprido. Completando seu line up com Thiago Oliveira na outra guitarra, Victor Prospero no baixo, Leandro Caçoilo no vocal e, como convidado para essa apresentação, Marcus Dotta na bateria, é necessário ressaltar a garra e profissionalismo desse time. Mesmo em meio a tanta correria e pressão do relógio, o quinteto cumpriu sua função na noite. Executando as músicas Beyond the Sun, Mechanical Souls e 334, até mesmo por conta disso tudo, foram extremamente bem recebidos pelos que já estavam presentes.

Novamente a tensão e correria se fez sentir vinda de trás da cortina do palco, ao mesmo tempo em que a casa ia atingindo sua lotação. E, por volta de 19h15, com mais ou menos quinze minutos de atraso, o som mecânico se faz ouvir com o tema de Remedy Lane, servindo de tapete vermelho para que o Pain of Salvation adentrasse ao palco. Daniel Gildenlöw na guitarra e voz, capitaneando a banda, Ragnar Zolberg também na guitarra e nos vocais, Leo Margarit na bateria e backing vocal, Gustaf Hielm no baixo e backing vocal e Daniel Karlsson no teclado, os responsáveis por praticamente lotar o Carioca nessa noite. O início do show foi exatamente igual ao da última tour, com as faixas que abrem o citado álbum, Of Two Beginnings e Ending Theme. Porém, dessa vez, a sequência do Remedy Lane se seguiu, trazendo a prog Fandango e a incrível A Trace of Blood. Incrível também é a interação que Daniel tem com o público. Não é novidade para ninguém que conhece o mínimo sobre a banda o enorme talento que Daniel possui. Junto a isso, a simpatia e o carisma latente ajudam a formar a mística que envolve o músico e a pessoa de Daniel. E tudo isso é facilmente sentido durante a execução do show. Nesse momento, Daniel vai ao microfone para explicar o que havia ocorrido, e tudo o que estavam chutando para que pudessem estar ali. Sem tempo de ajustar o som, avisou que isso estava sendo feito enquanto tocavam, motivo para o público delirar e aumentar o apreço pela banda. Seguindo o set list, Linoleum e ! (Forward). Ao final dessa, o público começou a pedir pelo maior hino da banda, Undertow, que não havia sido executada nos duas últimas datas anteriores. Em meio aos gritos de “Undertow! Undertow!”, começou-se a se fazer ouvir também outros tantos nomes de músicas. Daniel foi a frente, fez aquele gesto de mão na orelha, como se tentando escutar e entender o que pediam. E então disse “Ok, vamos tocar o que vocês pedirem!” A casa quase explodiu em meio a tantos pedidos misturados! Mas, foi apenas uma brincadeira, e o set list se seguiu conforme os anteriores, com People Passing By. Essa música sempre se destacou entre as mais progs e intrincadas da banda, e foi incrível poder ver a execução perfeita que ofereceram aos presentes. A acústica 1979 seguiu, com todos os integrantes cantando, em um dos mais belos momentos do show.

E então, a primeira mudança de set em relação aos anteriores, Falling, que vinha sendo executada, dessa vez não foi. Ali foi melhor, para todo fã, esquecer os sets anteriores e se concentrar no dessa noite. Dando continuidade, uma nova sequência de músicas do álbum Remedy Lane, Rope Ends, Dryad of the Woods (que música linda ao vivo!) e Beyond the Pale. A sensação que poderia ter sido possível ouvir esse álbum clássico quase em sua íntegra certamente tomou conta de muitos, assim como este que vos escreve. Nesse momento a banda se retira do palco para o momento do bis. Poucos minutos se passam para que a mesma volte, e execute Ashes, uma das músicas mais fortes de sua discografia, e encerram com The Physics of Gridlock. Nesse momento, foi dada a mim a tarefa de subir ao palco e fazer o registro final com o público ao fundo. E, ver ali do palco, como a casa estava cheia e sentir um pouco daquela energia, me deu uma dimensão exata da magnitude da apresentação dessa noite.

A principal impressão que o Pain of Salvation deixou nessa passagem é a nítida evolução como grupo que estão obtendo. Muito mais coesos, executando músicas muito mais complexas e exigentes, todos se saíram muito bem. Leo Margarit surpreendeu e muito, finalmente mostrando o grande baterista que é. Ragnar tem um domínio de palco que ainda não havia demonstrado, assim como excelentes passagens com os vocais principais. E Daniel deixou claro estar plenamente recuperado da doença que quase o levou de todos nós. Se não fosse o atraso, essa noite teria sido perfeita. Pois certamente pode-se dizer que foi sua melhor apresentação desde sua primeira passagem por nossas terras, ainda com a formação original. Fica a clara e óbvia esperança que eles voltem o mais rápido possível, e que dessa vez tudo ocorra sem contratempos. O público fiel que lotou a casa merece!

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