Livros e Publicações Preste Atenção! Reportagens Especiais Caricaturas Parceiros Destaque Coberturas Entrevistas Lançamentos Home
Vital Remains – Inferno Club – São Paulo/SP – 07/03/15

Postado 17 de março de 2015 às 12:43

Share |

Texto e fotos por Evandro Camellini

Um festival mal divulgado, poderia dizer até quase nulamente divulgado. Um sábado tipicamente paulista, caótico com a chuva tomando conta da cidade. Seis bandas em um local que não costuma figurar na lista dos preferidos dos frequentadores de shows de São Paulo. Tudo isso junto no mesmo caldeirão poderia soar como uma receita certa de fracasso, não? Pois é, poderia. Mas as bandas envolvidas nesse evento fizeram com o que o mesmo fosse o exato oposto disso. Mesmo com um público ínfimo, que em sua atração principal mal contava cem pessoas, o “Anthology of Evil Day Fest”, como foi batizado o referido, se fez valer em muitos aspectos positivos, que merecem e serão exaltados.

Por conta da citada chuva, que caiu muito forte nas primeiras horas da tarde, não foi possível para nossa equipe chegar no horário de início do evento, que foi cumprido a risca. Assim que adentramos a casa, a banda Oligarquia, que teve a missão de iniciar os serviços, já estava com boa parte de seu show apresentado. E, é preciso salientar: a garra e determinação com que esse quarteto, formado por Guilherme Sorbello e Victor Pancho nas guitarras e vocais, Artour Queiroz no baixo e Panda Reis na bateria, tocava para um público que não chegava a dez pessoas, era digna de todos os aplausos do mundo! Até por isso sou obrigado a me desculpar por ter perdido essa apresentação. Mas, o pouco que pude ver, o Death Metal direto apresentado por eles teria agradado a um público muito maior.

Na sequência, aqueles que talvez sejam o maior nome da história do Doom Metal nacional: o grande Mythological Cold Towers. Formado por Shammash, guitarrista e mentor da banda, Nechtron também na guitarra, Yaotzin no baixo, Hamon na bateria e o monstro Samej no vocal, o MCT, como é mais conhecido, investe numa fórmula não muito difundida em nossas terras: músicas lentas, extremamente pesadas, recheadas de climas, como o bom e velho Doom pede. E é preciso dizer: quanta qualidade! Ao longo de oito hipnóticas músicas, iniciadas com In the Forgotten Melancholic Waves Of The Eternal Sea, passando por Lost Path to Ma-noa, Beyond The Frontispiece, Vestiges, Immemorial, Akakor e Contemplating The Brandish Of The Torches, o que se ouviu foram músicas de uma densidade profunda, com volume e peso poucas vezes percebido ao vivo em uma banda do estilo. Músicas lentas nas velocidades exatas para interagirem com os climas melancólicos e pesados, guitarras afiadas, cozinha volumosa, e um vocal que chega a impressionar. Quem já conhece o trabalho da banda, certamente não se espanta diante de tal relato. Para quem não conhece, e aprecia o ambiente Doom, faça um favor a si: corra e mude isso! O encerramento ficou por conta de Vetvstvs, que trouxe consigo aquela sensação que poderíamos ficar mais alguns bons minutos ali aproveitando o trabalho dessa grande banda.

 

Seguindo, e retomando a velocidade normal da noite, os paulistanos do Necromesis. Formados por Mayara Puertas nos vocais, Daniel Curtolo na guitarra, Gustavo Marabiza no baixo e Gil Oliveira na bateria, o quarteto apresenta um Technical Death Metal de respeito. Músicas recheadas de variações métricas, estruturas rítmicas intrincadas, linhas melódicas de cordas de darem nó no ouvido, e um vocal brutal, mesmo vindo da voz de sua dona de feições doces e delicadas. Começando com Desocial Inclusion, para os que não conhecem o som do Necromesis, certamente se assustaram com tamanha agressividade. As duas músicas que se seguiram tiveram a ordem invertida no palco, Evolving a Paradox e Condemned by Themselves, o que aparentemente não causou problemas para a execução dos músicos. Marabiza parecia dar um nó nas cordas de seu baixo, enquanto Gil esbanjava técnica nos blast beats.  The Last Stage of a Mind foi executada após agradecimentos feitos por Mayara, junto a um breve discurso onde dizia que, a intenção da banda naquele evento era lançar seu novo material, mas que por motivos maiores, não foi possível. Também parabenizou seus companheiros de banda, que completavam dois anos de formação intacta. E então fecharam seu set com The Omission of Living. Uma banda que merece ser ouvida com cuidado por apreciadores do estilo.

 

Logo após vieram os interioranos do Morfolk. Oriundos da cidade de São José dos Campos, o quinteto formado por Walter Pitucha nos vocais, Reinaldo Tio e Roberto Repolho nas guitarras, Ryan Roskowinski no baixo e Daniel Sanchez na bateria apresenta um Death Metal rápido, vigoroso, agressivo e cheio de energia. Ao longo de sete músicas, o que se percebeu no palco foi pouca movimentação dos músicos, que permaneceram o tempo todo em seus lugares “de origem”, demonstrando até um certo receio em estar ali. Impressão que se desmontava por completo quando se apegava apenas ao som executado, que era o contraste exato a essa postura fria. Em divulgação de seu terceiro e mais recente álbum, Until the Death, que foi apontado como um dos melhores lançamentos de 2014, e celebrando também a volta de Repolho a banda, o público que começava a crescer apoiou em todos os momentos essa apresentação, mostrando que o Morfolk já tem sua fatia do reconhecimento entre os fãs do estilo. Set list executado: Blood Lust, Slaves of the Underworld, W.W.W (World Wide War), Shadows of Fear, Desordem, Hate Beyond the Pain e No Tomorrow.

 

Fechando as atrações nacionais, os veteranos do Genocídio. Formado por Murilo Leite na guitarra/vocal, Rafel Orsi na guitarra/backing vocal, Wanderley Perna no baixo e João Gobo na bateria, o quarteto, que continua em divulgação de seu último trabalho de estúdio, o álbum In Love With Hatred e vem se especializando em abrir shows internacionais, mostrou aquilo que todos já se acostumaram: peso, velocidade e agressividade. Recentemente, tenho tido a oportunidade de presenciar vários shows do Genocídio, e esse em específico me marcou pela forma com que as músicas foram executadas, totalmente no esquema “blitzkrieg”. Sem pausas, sem intervalo, fôlego inabalável!  Orsi continua sendo a figura mais chamativa no palco, sempre agitando muito e com expressões das mais variadas. Murilo sempre com seu característico microfone, quase sua assinatura visual. E, após a intro mecânica com Birth of Chaos, a já clássica Kill Brazil, música de trabalho do citado álbum. Seguindo com Rebellion, Encephalic Disturbance, Heredity, a que batiza o play In Love With Hatred, Passion and Pride e aquele momento, característico da atual tour, mas nunca perdendo o aspecto inusitado: o cover de Mercyful Fate, Come to the Sabbath. Para finalizar, uma sequência de três músicas executadas quase como se fossem uma só: The Grave, Uproar e The Clan. Mais um ataque realizado com maestria!

E, fechando o evento, que a esta altura já havia se tornado um tanto cansativo, os americanos do Vital Remains. Entrando em seu 26° ano de carreira, a banda trouxe ao Brasil Tony Lazaro, fundador da banda, na guitarra, Gator Collier no baixo e vocal, Jack Blackburn na bateria, Brian Werner no vocal e Aaron Homma na guitarra de apoio. Um time que veio arrasar tudo o que via pela frente, num devastador Brutal Death Metal de deixar o mais experiente Deathbanger extenuado! A essa altura, o público já havia crescido um pouco, embora ainda se mantivesse muito inferior ao que o evento merecia. E, mesmo extremamente pequeno, conseguiu agitar e gerar energia suficiente para se fazer valer por algumas centenas. Várias “rodas” foram abertas, moshes vindos do palco e muita celebração de punhos cerrados a frente de Werner. Abrindo a profanação sonora com Where Is Your God Now?, o que se viu ao longo de todo o set foi o carinho e amor a Deus que os integrantes da banda possuem, só que ao contrário. Werner não cansou de olhar para cima, como se buscasse por Deus ou sua representação, apontando seu dedo do meio em riste. Sua camiseta já trazia a singela mensagem “I Hate Christ” (Eu odeio Cristo). Collier dividia as insanas linhas de vocal, sempre com expressões das mais psicóticas, com os olhos virados e um aspecto paranoico. Aaron era o que mais agitava, jogando o cabelo para cima todo o tempo, ao mesmo tempo em que fazia uma careta um tanto, digamos, ridícula. O set seguia com bombardeios sonoros como Icons of Evil, Scorned e Hammer Down The Nails. No meio do show, já tendo feito muito contato com o público e agradecido bastante a presença de todos, Werner relata pessoalmente o que já havia sido colocado no facebook: a companhia aérea responsável pelo transporte da banda e seu equipamento, fez o favor de extraviar o mesmo. O que, obviamente, gerou um desconforto e stress considerável a todos os envolvidos. E com um sonoro “Fuck you United Airlines!”, o show prosseguiu, chegando ao segundo momento também anunciado previamente via rede social: a execução de uma nova música. Algo que não se ouvia a oito anos, em uma avant premier mundial para o público brasileiro. E então, In a World Without God foi executada, após uma longa intro mecânica. Espetacular! Forever Underground e Dechristianize deram formas finais a um dos shows mais pesados, rápidos, técnicos e brutais que já passaram por nossos palcos.

O saldo final do evento foi o mais positivo. A produção foi esmerada, cumprindo horários, equalizando corretamente o som, fornecendo um mínimo de iluminação decente e variável para cada show e apoio correto in loco às bandas. Talvez e muito provavelmente tenha falhado apenas na divulgação, que foi mínima, o que certamente influenciou no público reduzido. Os shows foram excelentes, com bandas que tocaram com muita garra e competência o que se propuseram. E uma atração internacional que marcou a mente de todos os que ali estiveram. Quem sabe em um próximo, um pouco mais de divulgação e uma ou duas bandas a menos no cast não façam o evento ser um sucesso sem ressalvas.

 

coberturas