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ENTREVISTA – LUCIANO VASSAN – TAMUYA THRASH TRIBE

Postado 22 de novembro de 2016 às 15:03

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ENTREVISTA – LUCIANO VASSAN – TAMUYA THRASH TRIBE

“ (… ) A gente está em busca da nossa identidade, trilhando o nosso próprio caminho, evitando repetir formulas do passado e tentando pensar e fazer coisas “fora da caixinha”. E, convenhamos, misturar ritmos não é nenhuma novidade, em outros gêneros essa fusão é bem mais normal do que no Heavy Metal e normalmente é sempre enriquecedor. No metal a gente vê muita mistura com música celta, elementos da cultura nórdica, até Egito antigo tem! E essas coisas são bem aceitas, acho que tem espaço pra cultura brasileira também. – Luciano Vassan.

Fazer as coisas fora da caixinha. Uma fórmula professada por quase todo mundo, mas que quase ninguém coloca em prática, de fato. Aqui, ao que parece, os rapazes do Tamuya Thrash Tribe entenderam o espírito da coisa e o colocaram em prática com maestria. A banda é praticamente uma recém-nascida no cenário nacional e já está faz uma “batucada” enorme por aí com sua bela mistura de ritmos regionais brasileiros e Thrash Metal, com muito profissionalismo e conteúdo de primeira. Quer saber do que se trata tudo isso que estamos falando? Então leia a ótima entrevista concedida pelo vocalista Luciano Vassan que não economizou palavras e atenção para nos contar um pouco mais sobre sua “tribo”.

Por Thamy Melo

HARD AND HEAVY: Antes de começarmos deixo o agradecimento pelo tempo em responder essas perguntas para nós e aproveito para parabenizar o novo trabalho, vocês enriqueceram e muito o Metal nacional com ele. O Tamuya já foi criado no intuito de abordar esses conceitos nativos, ou foi algo que veio depois?

LUCIANO VASSAN: Desde o início da banda a proposta era falar sobre cultura, história e folclore Brasileiros. Mas depois de um tempo a gente começou a sentir a necessidade de ir além, foi quando começamos a incorporar elementos da música regional, indígena e de religiões de matriz africana. Foi meio que um caminho natural quando sentimos que precisávamos nos aprofundar no conceito que a gente vinha buscando desde o primeiro EP.

A entrada do Bruno (Baterista) na banda acrescentou muito para isso também, pois ele veio com um background muito grande de música brasileira, além do Metal ele já havia participado de projetos de Samba, Maracatu, MPB, dentre outros.

HH: Como aconteceu a junção disso com o Thrash Metal?

LV: Acho que foi uma mistura muito bem sucedida, ritmos como o Maracatu, Samba, Maculelê, dentre outros já são pesados por natureza. Desde moleque quando eu ouvia já imaginava umas guitarras distorcidas, foi fácil de juntar, as coisas se encaixam, se complementam.

HH: Fale um pouco sobre como a banda foi fundada e se possível uma breve apresentação dos integrantes.

LV: A banda começou em 2010, a princípio como a maioria das bandas começam, juntando amigos para fazer um som, sem muitas pretensões. Logo que começamos a escrever e definimos que seguiríamos uma temática específica, as coisas foram ficando mais sérias e fomos nos aprofundando cada vez mais. Quando lançamos o primeiro EP, United (2011), tivemos uma boa aceitação, que nos rendeu a participação em grandes eventos e abertura de bandas grandes como Black Label Society, Amon Amarth, Nile, dentre outras. De lá pra cá muita coisa aconteceu, tivemos algumas mudanças no nosso time e acho que agora estamos com uma formação que considero ideal, todos excelentes profissionais, dedicados e focados no trabalho, além de grandes amigos. Não poderia ser melhor.

Hoje a banda é: Luciano Vassan (vocal, guitarra), Leonardo Emanoel (guitarra), João Paulo Mugrabi (baixo), Bruno Rabello (bateria). Além da participação dos percussionistas Dudu Bierrenbach e Paula Perez que vem nos acompanhando nos nossos shows.

HH: Vocês lançaram primeiramente o Ep United e agora ele apareceu remasterizado junto ao debut. Por que decidiram remasterizar e lançar dessa forma?

LV: Desde o lançamento do United, a gente teve a entrada do João Paulo no baixo e do Bruno na Bateria, e as contribuições dos dois mudaram muito a forma com que nós tocamos as músicas ao vivo. Quando iniciamos a gravação de The Last Of The Guaranis, tínhamos a intenção de lançar um álbum especial, que pudesse se destacar num cenário com tanta oferta de bandas de qualidade, com tanta informação vindo de tantos lados, então achamos que seria interessante regravar baixo e bateria e remasterizar todo o resto, e oferecer isso como bônus para os nossos fãs. Acho que o resultado ficou incrível. Espero que as pessoas tenham gostado.

HH: Já existia algum envolvimento seu ou dos outros integrantes com essa, vamos dizer, causa, voltada à valorização da cultura brasileira, especificamente às raízes indígenas?

LV: Eu tenho um histórico na família, minha mãe trabalhou como indigenista e morou muitos anos com índios no Mato Grosso, não foi uma influência direta, mas sempre tive muitos livros, objetos e artesanatos indígenas em casa. Sempre tive um interesse na cultura indígena, mas era uma curiosidade mesmo.

Mas foi quando comecei a escrever sobre questões políticas e históricas do Brasil, que o interesse aflorou, afinal de contas é bem difícil falar de Brasil sem falar de índios e negros. E aí fui buscar novas fontes, fizemos amizades com indígenas de diversas etnias e essa proximidade com eles é que tornou o conteúdo das nossas letras mais aprofundado.

HH: Por que o nome Tamuya? O que ele significa e por que essa junção com “Thrash Tribe”?

LV: Tamuya vem do Tupi, Tamoio, que significa o mais velho, sábio. Foi o nome de um movimento de resistência onde várias tribos, lideradas pelos tupinambás, que não queriam ser colonizadas e escravizadas pelos portugueses. Na historiografia oficial, esse movimento ficou conhecido como Confederação dos Tamoios.

A gente achou que isso seria uma ótima metáfora para a nossa cena, pois sempre pregamos que a união seria a única forma de reerguermos o Rock e o Metal aqui no Brasil, e por isso o refrão “United” virou, além do nome do disco, o nosso grito de guerra. O Thrash é por motivos óbvios, a gente veio do Thrash Metal, apesar de não nos limitarmos a esse rótulo, ele só indica de onde viemos. E o Tribe é um retorno às nossas raízes, da música tribal.

HH: Como se iniciou todo esse processo de criação do CD, das ideias, como vocês decidiram que iriam retratar esse assunto com essa abordagem (me refiro às composições e junção de elementos/instrumentos regionais)?

LV: A gente não tem um processo muito amarrado de criação, normalmente eu começo a estudar alguns assuntos, escrevo as letras e inicio uma melodia e harmonia, a partir daí levo para o resto da banda e as músicas vão ganhando forma. Algumas surgiram por conta de assuntos que aparecem na mídia, outras por conta de pesquisa e curiosidade mesmo, não tem um critério específico.

Quando escrevi a letra de The Last Of The Guaranis a gente de cara achou que seria uma ótima música para dar nome ao álbum, é uma letra que fala muito sobre a cultura Guarani e a realidade dos indígenas brasileiros, de uma forma geral. A partir disso procurei a Isabelle Araujo (artista que desenhou a arte da capa) e começamos a pensar juntos no conceito da capa e tudo foi fluindo naturalmente.

HH: As participações especiais acrescentaram muito ao trabalho e em minha opinião, levaram a coisa a outro nível. Qual era a intenção de vocês quando decidiram que seria feito dessa forma? Foi difícil conseguir com que essas parcerias acontecessem?

LV: Na banda tudo é feito de forma contextualizada, tudo tem um porquê. As participações foram convidadas de acordo com as músicas. No caso do Marcelo D2, era uma música que fala do processo de favelização que se intensificou após a abolição da escravidão e a intolerância com as religiões africanas. O Marcelo é um cara totalmente identificado com o tema, nasceu e cresceu nas comunidades do subúrbio carioca, tem uma proximidade com a umbanda e o candomblé, como se pode ver em algumas de suas músicas, e além disso, é um cara que começou no underground, no Garage, assim como a gente. Nessa música ainda temos a participação de uma Mãe de Santo cantando a introdução e dois Ogãs (pessoas que tocam os atabaques no terreiro) tocando as percussões.

No caso do João Cavalcanti, ele é de família nordestina, é filho do cantor Lenine, e apesar de hoje ter uma banda de samba (Casuarina), ele já teve outros projetos de música regional, e por isso fiz o convite, já que é uma música que fala sobre o cangaço, que é uma coisa muito forte na cultura nordestina.

Além disso temos a Zahy Guajajara, que é indígena e nos presenteou com uma bela poesia que a gente teve o prazer de musicar. E ela ainda nos emprestou a sua bela voz. Ficou incrível. O coral de crianças Guarani Mbya também gravou a faixa de introdução do disco e o hidden track do final (estraguei a surpresa). São músicas tradicionais dos guaranis, que criam toda a atmosfera para se começar a ouvir o nosso disco.

HH: Existem alguma ou algumas curiosidades sobre a gravação do The Last Of The Guaranis, ou sobre o próprio CD mesmo, que queira comentar?

LV: Hahahaha várias, não sei nem por onde começar, mas uma coisa marcante foi o dia que o Marcelo D2 foi gravar com a gente. Ficamos horas e horas conversando sobre comida saudável, prática de exercícios e tratamentos homeopáticos. Achei isso bem inusitado.

HH: Algumas bandas já bem famosas do cenário brasileiro já fizeram antes o que vocês estão fazendo hoje, a grosso modo, e são trabalhos que de fato marcaram seus nomes no Metal nacional. Mas esse trabalhos já vieram depois de alguns lançamentos e uma certa consolidação do próprio nome no meio (me refiro ao Angra e ao Sepultura). No caso do Angra, um trabalho que dividiu muitas opiniões, a principio. Vocês não, já trouxeram isso logo para o debut. Não houve nenhum tipo de receio por parte do grupo em apostar nisso de cara?

LV: A comparação é inevitável e bandas como Sepultura e Angra são grandes fontes de inspiração pra gente. Mas não só eles, a gente bebe também na fonte do Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Grangrena Gasosa, Lenine, Zé Ramalho, Novos Baianos, Mutantes, as bandas do Levante do Metal Nativo (Armahda, Aclla, Arandu Arakuaa, Cangaço, Hate Embrace, Morrigam e Voodoopriest) e tantos outros…

Mas a gente está em busca da nossa identidade, trilhando o nosso próprio caminho, evitando repetir formulas do passado e tentando pensar e fazer coisas “fora da caixinha”.

E convenhamos, misturar ritmos não é nenhuma novidade, em outros gêneros essa fusão é bem mais normal do que no Heavy Metal e normalmente é sempre enriquecedor. No metal a gente vê muita mistura com música celta, elementos da cultura nórdica, até Egito antigo tem! E essas coisas são bem aceitas, acho que tem espaço pra cultura brasileira também. Nós temos uma cultura tão rica, com tanta diversidade, que é praticamente inesgotável, dá pra gerações e mais gerações de bandas abraçarem o tema sem se repetirem e sem acabar os assuntos.

HH: Como vocês veem esse trabalho em meio ao cenário nacional? Estão satisfeitos com seus resultados e feedbacks?

LV: Até agora os feedbacks tem sido muito positivos. A crítica e o público tem nos recebido muito bem, nossos shows estão cada vez mais cheios e sempre que tocamos com uma banda de maior visibilidade, como foi nos casos de Black Label Society, Amon Amarth, Nile, dentre outras, a gente sempre foi muito bem recebido.

HH: Como vocês tem visto e vivido o underground no Rio de Janeiro nos últimos anos?

LV: O underground não é para os fracos! Tem que amar muito o que faz e, principalmente, trabalhar muito!

Acho que aos poucos nós temos visto algumas mudanças na cena. Mais pessoas tem saído de casa para ver shows autorais, bandas de qualidade vem surgindo, casas que não tem tradição de shows de rock e metal estão perdendo o preconceito e abrindo suas portas para a gente, novas casas vem surgindo e assim a gente vai engatinhando… Ainda falta muito, mas estamos no caminho.

Vejo muita gente, muitas bandas, reclamando do público, da falta de oportunidades, de lugares para tocar, mas eu não compartilho dessas opiniões, para mim o público existe, ele está carente de boas bandas, de boa música e não adianta ficar reclamando, tem que arregaçar as mangas, trabalhar muito e criar as condições para que eles apareçam nos shows.

Não adianta apenas agendar um show, publicar nas redes sociais e achar que o trabalho está feito. Tem muito mais coisas envolvidas, a gente vem fazendo uma comunicação de guerrilha, estamos presentes no máximo de eventos que podemos, nossa presença digital é forte, temos uma assessoria de imprensa, e tantas outras ações, o trabalho não para nunca… Um dia desses eu estava no médico e me peguei falando sobre a banda e dando uma palheta para ele. Dias depois ele me adicionou no facebook falando que tinha curtido o nosso trabalho. É um trabalho sem fim, mas que se feito com dedicação e profissionalismo vai gerando resultados, pelo menos a gente está sentido o retorno.

Quanto às oportunidades, não dá mais pra ficar esperando alguém de alguma gravadora nos descobrir, hoje a internet pode nos proporcionar coisas que eram impensáveis há alguns anos atrás, a gente tem que aprender a utilizar as ferramentas que temos disponíveis para nos beneficiarmos disso. Aos poucos nosso material está chegando em diversas partes do mundo, já recebemos alguns convites para turnês na Europa, Rússia, Canadá e América Latina, ainda não rolou, mas estamos nos planejando para sair do Brasil em 2017. E se faltam lugares para tocar (o que eu discordo), a gente pode criar as oportunidades, abrir novos espaços, buscar espaços que não são tradicionalmente do metal, mas que podem abrir suas portas para a gente, até mesmo tocar em praças, escolas, na rua, sei lá… A gente não pode é ficar reclamando!

HH: E sobre o mercado internacional, vocês já lançaram os trabalhos lá fora ou existe alguma intenção de fazê-lo?

LV: Oficialmente ainda não lançamos, mas como falei na resposta anterior, nosso trabalho já rodou vários países graças à internet. No momento estamos buscando parceiros para fazer essa distribuição.

HH: Qual visão vocês tem do underground brasileiros atual e a relação dele com a cultura do próprio país?

LV: Acho que se assemelha muito ao que falei anteriormente sobre a cena carioca, o Rio de Janeiro pode ser considerado um micro-cosmos do que acontece em toda a cena brasileira. Em geral a cena é dividida e fragmentada, a gente ainda precisa se profissionalizar muito. Nós tentamos nos espelhar profissionalmente em artistas consagrados, tanto no metal quanto em outros gêneros, tentando aprender os caminhos, o que podemos melhorar e como podemos ser cada vez mais profissionais.

Um fato que dificulta bastante é que o Brasil é muito grande e fica muito caro excursionar para regiões mais afastadas. Para ser viável sair da região sudeste é preciso que o nosso show leve pessoas o suficiente para custear as passagens, hospedagem, alimentação, equipe e cachê. Por isso é muito difícil para as bandas independentes saírem de suas cidades. A gente precisa atingir um patamar bem alto de exposição para começar a viajar, coisa que na Europa seria muito mais fácil de viabilizar. Mas aos poucos a gente vem conquistando mais fãs e seguidores e já conseguimos fazer alguns shows memoráveis fora do Rio de Janeiro.

HH: Fale um pouco sobre a agenda de vocês, quais experiências e por quais lugares já puderam passar desde o lançamento do EP, para cá e quais os planos para o Tamuya daqui para frente?

LV: Essa pergunta termina sendo complementar à anterior. Até o momento nossos shows se concentraram mais na região sudeste pelos motivos já falados anteriormente, já tivemos diversos convites para show nas regiões Norte, Nordeste e Sul, mas não foi economicamente viável ainda. Mas ao longo desses 5, 6 anos de bandas, nós já passamos por diversas cidades dos estados do RJ, SP, MG e ES, tocamos com grandes bandas como Black Label Society, Amon Amarth, Nile, Matanza, Hibria, Project 46, dentre outras.

Após do lançamento do TLOTG, a gente está chegando a um nível de exposição que nos permite alçar voos maiores, a crítica e a recepção do público têm sido muito boas e estamos recebendo alguns convites para shows em diversas cidades do país (e fora também). Nesse momento estamos planejando o ano de 2017, a nossa meta principal é levar nossos shows para outros lugares. Está prevista uma viagem para as regiões Nordeste, Sul e também um tour pela Europa.

HH: Bom, esse é o espaço final, deixa o recado que desejar para os nossos leitores!

LV: Espero que curtam o nosso trabalho, procurem saber mais sobre o que está acontecendo na cena brasileira, tem muita gente boa por aqui, que não deixa nada a dever pra gringo nenhum.

Apoiem a cena da sua cidade, vão aos shows, comprem o merchadising das bandas, divulguem, compartilhem, sejam parte da cena. A música não existe sem os fãs, é para vocês que a gente trabalha!

United!

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