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EPIC METAL FEST BRAZIL – AUDIO – SÃO PAULO – SP – 15/10/2016

Postado 21 de outubro de 2016 às 23:28

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Por: Thamy Melo / Fotos concedidas por: Leandro Almeida (Universo do Rock)

Sucesso absoluto. E não é exagero começar já com essa conclusão. Há mais ou menos dez meses atrás o desfecho do after movie da edição holandesa do Epic Metal Fest de 2015 fez grande parte dos fãs brasileiros do Epica se arrepiar dos pés à cabeça. Nele, após cenas do evento de tirar o fôlego, a bandeira brasileira aparecia, ao lado da holandesa. Bom, uma imagem fala mais que mil palavras, e essa deixou o público em polvorosa. Poucos dias depois Mark Jansen, líder e guitarrista/vocalista do Epica, confirmou os rumores e a partir dai a contagem regressiva para um dos mais aguardados festivais de 2016 se iniciou. Ao lado do Maximus Festival, o EMF debutou com sucesso em terras brasileiras, o saldo super positivo desses festivais monstruosos foi sem dúvidas um grande marco. Certamente novas portas e uma nova visão sobre o nosso país estão surgindo por aí. Que assim seja! Estes e os demais festivais nacionais de sucesso e já conhecidos, fizeram de 2016 um ano inesquecível, e esperamos, divisor de águas.

Sob curadoria do Epica e produção da Overload, o evento contou com alguns dos principais nomes do Metal nacional e internacional. De fora, as bandas Xandria, Finntroll, Paradise Lost e The Ocean Collective. No time verde e amarelo, Project 46 e Tuatha De Danann. Nove horas de programação, dois palcos, foodtrucks com comes e bebes, um merchandising recheado, alguns meet&greets gratuitos, uma ótima infraestrutura e horários seguidos (quase) à risca foram a formula perfeita para que cada uma das milhares de pessoas que lotaram a Audio saíssem de lá moídas, porém satisfeitas, e porque não, realizadas. Exatamente o que cada banda também transparecia ao final de suas respectivas apresentações.

O primeiro meet&greet rolava no deck com os finlandeses do Finntroll e quem foi rápido conseguiu conhecer e tirar fotos com ídolos antes da primeira atração do dia. Relógio cravado nas 14h30 daquele dia infernalmente quente, os alemães do Xandria pisava em terras paulistas após mais uma mudança de vocalista. Mais do que qualquer um poderia imaginar, fãs do grupo compareceram em peso e ofertaram calorosas boas vindas, mais uma vez. Bom, o que era até bem esperado vindo de um evento cuja banda organizadora é um dos principais ícones do Symphonic Metal, um estilo não muito cultuado por aqui como o Metal Extremo ou o Melódico e o Heavy Metal por exemplo.

A sensação, apesar de diversidade do cast, era de que aquela tarde servia como uma grande reunião dos adoradores do estilo, que tem seu universo próprio. Uma hora era o que o Xandria teve para voar de volta à Alemanha com mais umas dezenas de fãs ganhos e parece que o grupo entendeu tal oportunidade, pois fizeram as honras do EMF no mais alto nível possível. Com um setlist enérgico que comtemplou somente os dois últimos álbuns (para tristeza dos fãs antigos), mas que não deixou nada a desejar em termos de execução. Dianne van Giersbergen destilou simpatia e se dirigiu ao público com confiança. Nightfall, Blood On My Hands e Forevermore figuraram entre os destaques do set e a clássica Ravenheart celebrou a fase antiga. Valentine encerrou a ótima apresentação de Marco Heubaum e Philip Restemeier (guitarras), Steven Wussow (baixo) e Gerit Lamm (bateria), além de Dianne.

Quem não quisesse perder nada, teria de correr entre um palco e outro, e assim foi para conferir a apresentação do Project 46. O segundo palco, ou o Palco Club, oferece mais intimidade entre público e banda, pela proximidade do palco baixo com a grade, e o próprio espaço da pista ser bem reduzido, comparado ao principal. A iluminação também parece ter sido feita para aumentar essa sensação, já que era bem mais simples e até mesmo obscura. O que por coincidência ou não, casou muito com o clima das três bandas que passaram por ali. O Project, formado por Caio MacBeserra (vocal), Vini Castellari e Jean Patton (guitarras), Henrique Pucci (bateria) e o mais novo integrante Baffo Neto (baixo), destilou quarenta e cinco minutos da insanidade já conhecida que nunca falha em colocar fogo no público e provocar moshpits em qualquer lugar. Mescladas entre agradecimentos e recados bem dados do vocalista, algumas faixas do álbum Que Seja Feita A Nossa Vontade (2014), entre elas Atrás das Linhas Inimigas, Erro +55 e Foda-se (Se Depender de Nós), comprometeram pescoços desde o começo.

E ainda sobre pescoços, sorte de quem entendeu que não sairia com o seu inteiro dali aquele dia e pediu para alguém preparar o salompas em casa, porque no palco principal o Finntroll vinha por aí, sem dó dos desprevenidos. Oriundos diretamente das terras geladas da Finlândia, os “elfos” desordeiros (caracterizados como tal, com direito a orelhinhas à prova de headbangings) que tocam um Death Metal melódico regado à polka finlandesa, invadiram o palco e foram responsáveis por simplesmente uma das melhores apresentações do evento, tanto em termos técnicos quanto de animação e performance.

Vreth (vocal), Routa e Skrymer (guitarras), Trollhorn (teclado, guitarra), Virta (teclado), Tundra (baixo) e MörkÖ (bateria) inflamaram a boa base de fãs presentes em uma hora de setlist, que contou com variadas canções de quase todos os trabalhos do grupo.  Mathias “Vreth” Lillmans, alternava entre seus vocais guturais hipnóticos durante as musicas e simpáticas interações com o publico paulista, e aos que estava mais perto do palco, muito carisma e sorrisos não faltaram por parte do guitarrista Samuli “Skrymer” Ponsimaa, que com seu bonezinho e orelhas (naturais) saltadas mais parecia saído de um conto de fadas moderno. Solsagan, Blodsvept, Svartberg e a derradeira Under Bergets Rot, foram apenas das algumas faixas que quase fizeram todos dar os braços e sair dançando polka na pista da Audio.

Uma das apresentações mais esperadas entre os fãs do gênero era a dos alemães do The Ocean, muito por conta de ser a primeira vez do grupo por aqui. Nem banda, nem público sabia o que esperar dessa apresentação. E que apresentação, meus amigos. Falar sobre The Ocean e a complexidade seu Progressive/Post/Avant-garde Metal ou “music with guitars in it”, como os mesmos descrevem, que vai além de simplesmente sonoridade, levaria uma matéria inteira. Mas fato é que o grupo possui trabalhos lançados de profunda complexidade tanto lírica quanto sonora e técnica, com um resultado único e um som transcendental, o que explica a expectativa pelo show. E eles não deixaram por menos. Na formação, Loïc Rossetti (vocal), Robin Staps e Damian Murdoch (guitarras), Mattias Hägerstrand (baixo) e Paul Seidel (bateria), presentearam o público com nada menos que a execução do álbum Pelagial (2013), na íntegra, numa performance visceral, com direito a um pequeno crowd surfing do vocalista e uma quase fusão entre banda e público, sob um ambiente sonoro e visual que apenas favoreceu a sensação “oceânica” transmitida pelo grupo ao vivo. A julgar pelas expressões do integrantes, as boas vindas brasileiras não deixaram nada a desejar, e eles, por sua vez, colocaram mais alguns fãs na conta. Fica aí mais uma banda obrigatória para um evento próprio, futuramente. (Ei, Overload, isso foi com vocês!).

Paradise Lost dispensa apresentações e certamente é um nome de peso aqui no Brasil. Muitos fãs da banda compareceram ao festival para ver os ídolos após praticamente dois anos de sua última vinda, no Overload Music Fest 2015. Ainda com a memória fresca daquele show, o público pode conferir um repertório diferenciado do anterior com direito a muita música antiga, como Pity The Sadness, Dead Emotion, As I Die e a ótima Embers Fire. O icônico vocalista Nick Holmes estava especialmente comunicativo (até onde permite o “calor humano” britânico), trocando algumas palavras e mensagens com o público e bebericava o que parecia ser whisky numa elegante taça, ao lado do pedestal. Em total contraste a Greg Mackintosh (guitarra) e Steve Edmondson (baixo), que se pareciam estar sempre entregues ao que tocavam e mantinham sua conhecida postura “away”.

Do outro lado do palco, o guitarrista Aaron Aedy era o contraponto de tudo isso, sempre atirando sorrisos e simpáticos agradecimentos para os fãs mais próximos, sem contar que não poupava agitação. Nessa pegada também o jovem baterista Waltteri Väyrynen arejava o visual e executava com bastante competência os clássicos do grupo. Do mais recente trabalho, No Hope In Sight, Return To The Sun e nas palavras de um Nick piadista, o momento para ir ao toalete de tão lenta que é essa música, Beneath Broken Earth. Bem, levar isso a sério seria um sacrilégio. Sem deixar as fases mais “pops” (que todo mundo ama, mas diz que não), Erased deu uma sacudida nos ânimos, bem como Say Just Words que despediu o quinteto “em ritmo de festa”.

E finalmente a última atração antes do show principal ficara por conta do Tuatha De Danann e seu conhecido Folk destilado com ritmos celtas e Metal. Detentores de um bom número de fãs, Bruno Maia (vocal, flauta, guitarra, violão, mandolin, banjo), Rodrigo Berne (guitarra), Giovani Gomes (baixo), Edgard Brito (teclado), Rodrigo Abreu (bateria) e Alex Navar (gaita irlandesa), não tardaram em transfigurar o palco secundário numa mágica gruta onde se sentia que a qualquer momento saltariam pequenas criaturas míticas detrás dos instrumentos. Com muita simpatia e de um talento ímpar, o grupo trouxe um setlist variado, não só com músicas já consagradas como também faixas do mais recente álbum, Dawn Of A New Sun (2015). Os destaques vão para as belas melodias de The Dance Of The Little Ones, Tan Pinga Ra Tan, We’re Back, Believe: It’s True! e Finganforn. Em posição de honra, os mineiros encerraram as apresentações convidadas para a banda mais épica da noite (com o perdão do trocadilho de fã).

Vinte minutos após o horário esperado, a intro Eidola, que abre o mais novo álbum The Holographic Principle, oficialmente lançado no Brasil naquele momento, foi suficiente para provocar um barulho ensurdecedor da plateia enquanto Ariën van Weesenbeek (bateria), Rob van der Loo (baixo), Isaac Delahaye (guitarras), Coen Janssen (teclado), Mark Jansen (vocal/guitarras) e a ruiva vocalista Simone Simons invadiam o palco da Audio como estivessem em casa. E de fato, estavam. A dobradinha dos novos temas Edge Of The Blade e A Phantasmic Parade trouxeram a casa abaixo desde o primeiro momento e estava claro que a cantora veio pronta para desbancar qualquer crítica. O vocal de Simons tem alcançado um patamar de altíssimo nível nas apresentações e facilmente podemos classificar essa última como impecável.

Martyr Of The Free Word e Sancta Terra vieram logo após um caloroso cumprimento da cantora e assinalou que o repertório contaria com algumas pérolas da carreira do grupo, além da óbvia ênfase em canções novas, motivo do evento. A essa altura todo o público já estava contagiado pela presença dos integrantes e pela maestria da apresentação, que nunca falha em sua fórmula dinâmica e bem orquestrada, sem se tornar enjoativa ou mecânica. Mesmo as letras das canções novas eram facilmente ouvidas em coro. O típico clima que lava a alma de qualquer fã.

Mais dois novos petardos assaltam os fãs na sequencia, Universal Death Squad e Divide and Conquer, e perguntando se todos estão prontos para a tempestade, Simone anuncia Storm The Sorrow, com um expressivo trabalho nos vocais guturais de Mark e Isaac. O coro de “Epica! Epica!” não demora a aparecer e os músicos acompanham em seus instrumentos, o que rendeu elogios de Mark Jansen “You guys fucking rock, you know how to party!”, antes da live première de Tear Down Your Walls. A partir daí, o repertório se intercalou entre faixas novas e antigas, Beyond The Matrix introduzida com seu coral arrepiante, acompanhado primorosamente pela vocalista, e com um salto no tempo ao debut do grupo, Facade Of Reality. Dedicada por Simone a todos que não podem viver sem a música em suas vidas, a faixa Ascension – Dream State Armageddon assinalou um dos melhores agudos da cantora já executados ao vivo.

Unchain Utopia encerrava a parte principal do setlist mais rápido do que qualquer um gostaria, e para o bis, os holandeses reservaram um emocionante momento surpresa introduzido por voz e teclado com a balada Once Upon A Nightmare. Mark anuncia que ainda há uma outra surpresa por vir para aqueles que ainda não querem ir pra casa e nada menos que Mother Of Light, não tocada há dez anos nas palavras do guitarrista, é executada. Finalmente, Simone agradece a todos pelo sucesso do evento e diz que é chegado o momento para enlouquecer como se ninguém estivesse vendo e massageia o ego dos brasileiros com um “You are the best audience ever!”. Consign To Oblivion encerra a primeira (de muitas, assim esperamos) edição do Epic Metal Fest Brazil com um saldo mais do que positivo, épico!

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