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MESHUGGAH – CARIOCA CLUB – SÃO PAULO – SP – 05/09/2016

Postado 17 de setembro de 2016 às 02:53

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Por Thamy Melo / Fotos concedidas por: Fernando Pires

Numa semana praticamente iniciada e finalizada por suecos (me refiro ao Soilwork no sábado último, 10, na Clash Club), ficou mais do que claro a qualidade e principalmente a originalidade e classe do tipo de Metal, principalmente os extremos em suas variadas facetas, que saí de lá para o mundo. E falando especificamente dos primeiros citados, o Meshuggah marcou sua segunda vinda ao país numa segunda feira de Carioca Club cheio. Sim amigos, o Carioca ficou pequeno, numa segunda feira. Isso já diz muito sobre o quanto vale a pena comparecer ao show do conjunto, não importa quanto, não importa onde. Shows do Meshuggah são experiências transcendentais. Sem exageros.

A abertura da noite ficou a cargo dos paulistas do JohnWayne, conhecidos por seu Hardcore originário da periferia de São Paulo, mais especificamente Perus, como os mesmos fazem questão de salientar, sempre orgulhosos de suas raízes. E pontualmente as 20h, ainda com um público mediano, o quinteto formado por Fabio Figueiredo (vocal), Rogerio Torres (guitarra/voz), Junior Dias (guitarra), Denis Dallago (baixo/voz) e Edu Garcia (bateria), mandou sem pedir licença sua primeira faixa, a pedrada Caim. Já bem recebidos por diversos dos presentes, na sequencia o grupo lançou Pesadelo Real e Dois Lados – Parte I (Inferno). A essa altura alguns problemas na PA surgiram, o que causou uma breve pausa e um pedido de desculpas por parte do vocalista, o que certamente gerou uma certa preocupação pelo restante do evento. Felizmente e sem deixar os ânimos caírem, o problema foi resolvido e a banda pôde prosseguir. Fabio é daquele tipo de vocalista que não para um minuto, nem de “berrar” habilmente os versos de suas canções e muito menos no palco, que para ele mais parece uma jaula, de tão pequeno que fica para tanta energia. Sempre carismático, incitou o público diversas vezes e antes da faixa Tempestade conseguiu provocar um breve mosh pit no meio da pista. A meia hora de apresentação foi encerrada com mais alguns petardos e cumpriu com sucesso a função de aquecer os presentes para o que viria a seguir.

Falar de Meshuggah é uma tarefa complicada. É tipo de banda para você calar a boca e ouvir, e isso é o suficiente, mas certa vez li uma definição que cabe muito bem nesse texto: o som dos suecos é intrigante, inesperado e caótico. Acrescentaria aqui uma ambiguidade: o caos mais harmonioso que já tive o prazer de testemunhar. É um paradoxo? Sim. Mas para quem conhece, de fato, o grupo, essa descrição faz todo sentido, tanto quanto é inegável o dedo revolucionário dos caras no Metal, que lançam mão de inovações técnicas, muita criatividade sem deixar nunca de lado o feeling, tão intenso em suas canções. Às portas dos quase trinta anos de estrada, o grupo atualmente composto pelo frontman Jens Kidman (vocal), Fredrik Thordendal e Mårten Hagström nas guitarras, na bateria Tomas Haake e Dick Lövgren no baixo, executa um tipo de som, definido pelos mesmos como Experimental Metal, que divide seu ouvinte entre a contemplação distante e uma entrega total, literalmente de corpo e alma. E foi exatamente isso o que foi visto em uma das apresentações de Metal Extremo mais matadoras do ano. Se não a melhor, como muitos comentavam ao final da noite.

Mas antes de chegarmos lá precisamos falar dos noventa minutos de pancadaria pesada que antecederam comentários e expressões estupefatas pouco antes das 23h, o que na verdade é um trabalho ingrato, pois nenhum review poderia fazer justiça, mas a tentativa é valida. Perpetual Black Second, do álbum Nothing (2002), foi a pancada que abriu o democrático setlist, que contou com canções de praticamente todos os trabalhos. Com a letra dada do que seria o resto da noite, obZen, do aclamado trabalho homônimo de 2008, veio na sequencia, sem troca de palavras entre público e banda. O que sinceramente não fez diferença alguma, porque, como já citado, a apresentação e o som dos suecos exige concentração, apenas quebrada por rápidos (porém violentos!) momentos de mosh pit intensos, como aconteceu nas faixas The Hurt That Finds You First, Bleed e na mais do que obrigatória New Millennium Cyanide Christ. De qualquer forma, os rapazes mesmo frios para os padrões do público brasileiro transpareciam muita satisfação em estar ali e nas poucas vezes que Jens se dirigiu à plateia, não poupou elogios e agradecimentos.

Outro aspecto muito forte é a atmosfera criada ao vivo, arrisco dizer ainda mais intensa do que as versões em estúdio e predominantemente caótica, causadas principalmente pelas faixas Lethargica, a dobradinha do talvez mais complexo álbum do conjunto, Catch Thirtythree (2005), In Death – Is Life e In Death – Is Death, a ótima Demiurge, de Koloss (2012) e a derradeira Dancers To A Discordant System, uma obra prima com seus quase dez minutos de muita quebradeira e uma perturbação virtuosa. Caos, desolação, é o clima criado pelos riffs dissonantes das guitarras de oito cordas, pelas passagens imprevisíveis, por uma cozinha obscura sustentada por compassos tão complexos quanto e tudo isso com linhas vocais extremamente agressivas, que apesar de seu brilho, são perfeitamente encaixadas à maestria do instrumental, sem sobressair do mesmo, mas certamente sem passar despercebido.

Como tudo que é bom dura pouco, o estado de transe imposto ao Carioca Club pelo magnetismo que saia do palco foi quebrado pelas inúmeras vozes em coro que gritaram “Meshuggah! Meshugga!” ao final da Dancers… , e dessa forma, os suecos se despediram do público paulista, mais uma vez, sob aplausos, muitos sorrisos, agradecimentos e um silencioso carisma. Que bela forma de começar a semana!

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