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OVERLOAD MUSIC FESTIVAL – CARIOCA CLUB – SÃO PAULO – SP – 04/09/2016

Postado 17 de setembro de 2016 às 01:59

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Por Thamy Melo / Fotos concedidas por: Leandro Almeida

Overload Music Festival, ou OMF para os íntimos, é o nome composto de um fest que já conquistou aquele lugar especial no coração do público Metal de São Paulo. Desde sua primeira edição, além de arrancar lágrimas e suspiros, tem o dom de deixar todo mundo se perguntando ao final de cada evento: “O que será que vão trazer agora? Tem como ser mais épico do que isso?”. Bem, entre a edição de 2015 e a atual, alguns (inclusive eu) já palpitavam sobre o possível headliner, um nome muito querido dentro do Metal mais alternativo, sendo este nada mais, nada menos que os suecos do Katatonia (reverencias). Fato anunciado no início do ano e extremamente comemorado por muitos. Tudo bem, escolha bem justa, uma vez que era subentendida como obrigatória após a edição “kickass” de 2015 que contou com Anathema e Paradise Lost. O OMF não poderia passar sem adicionar o terceiro elemento da santíssima trindade do Doom/Alternative Metal em sua história. Ainda assim a Overload conseguiu surpreender mais uma vez com o restante do cast, que contou com figurinhas repetidas, sim, mas em performances diferenciadas, como Vincent Cavanagh, vocalista do Anathema, em um show solo voz e violão; performances melhoradas, como no caso do Alcest e uma nova oportunidade para mostrar o talento dos brasileiros do Labirinto para um grande público.

Em ponto, a super convidativa primeira atração fez as honras como opening act de luxo do evento e a casa já ia em polvorosa quando o especialmente sorridente Vincent Cavanagh tomou seu espaço num “abarrotado” palco com nada mais que seu violão, alguns equipamentos e muita boa vontade. Inteligente escolha para manter cativos dentro da casa desde o início boa parte do público que compareceria. O formato da apresentação se resumiu a gravações para as bases das músicas, feito ali mesmo em seu sistema, o que rendeu alguns momentos divertidos e se mostrou uma opção inteligente para incrementar o acústico e dar mais vida a essa versão das canções. E falando em músicas, apesar de curtinho, o set foi mais do que um presente para os grandes fãs de Anathema, que puderam conferir clássicos há muito não tocados pelo grupo em turnês regulares como Angelica e Eternity pt. 1. Outras canções receberam uma carga emocional maior na roupagem acústica e no vocal tão visceral e tocante de Vince, como Thin Air, Fragile Dreams e a parte um de Untouchable, essa cantada especialmente em coro pelos fãs. Vale também a menção à Distant Satellites, habilmente adaptada a esse formato, em total contraste de sua versão original cheia de flertes eletrônicos. Meia hora, tudo o que foi concedido aos fãs do vocalista e do Anathema, suficiente para deixar todos com gosto de quero mais, saudades do grupo de Liverpool e agarrados à esperança da promessa do cantor sobre um breve retorno do conjunto ao país. Voltem logo, seus lindos!

Pronto, estava acontecendo. A essa altura já era possível se permitir prestar mais atenção ao redor e às estruturas do evento. Dessa vez, se a edição fora resumida para apenas um dia, outras coisas foram oferecidas ao público, como lanches, um merchan bacana, fora o meet&greet com o Alcest e outras atrações. Todas as propostas muito boas, mas não se pode deixar de notar o volume de filas e o tempo de permanência nas mesmas. Somar isso à pontualidade com que as apresentações começavam, gerava uma preocupação dentre o público e muitos acabavam desistindo da espera e voltando à pista para não perder nada do que se passava no palco. Apesar disso, seria injusto condenar a edição por esses detalhes, uma vez que se tratava de um local fechado, com estruturas limitadas. Bem, o principal motivo de todos estarem ali foi muito satisfatório, e dessa forma esperamos que nas próximas edições a produtora tenha condições de oferecer uma estrutura ainda maior.

Para quem via os paulistas do Labirinto pela primeira vez não poderia esperar encontrar uma sonoridade tão ímpar e acreditar que ali é sangue brazuca correndo. Gehenna é o novo e segundo trabalho do grupo, lançado oficialmente nessa edição do OMF.  Genialidade, densidade, ambiência. Um som que se você não quer sentir transportado de onde está e não deseja sentir cada partezinha do seu corpo ser tomada pela vibração do sons do conjunto, ou ter seu emocional sugado pelo “vortex musical” que te joga sem aviso de uma transcendência leve, apesar de melancólica, para um estado de quase pânico, não feche os olhinhos e se entregue, pois realmente não tem volta. Como entrar em pormenores da apresentação e execução das músicas ao vivo é uma tarefa a qual eu não vou ousar me prestar, basta deixar registrado que se você ainda não conhece esse expoente do estilo, que já tocou nos principais festivais do nicho pelo mundo e ao lado de bandas como God is an Astronaut, MONO, Alcest, Year of no Light, Stephen O’Malley, Mouse on the Keys, The Ocean, entre outras, digo: Pare de perder tempo. E em paráfrase do release encontrado no site oficial do conjunto, fica o arremate desse parágrafo: “Com seu som experimental denso, repleto de texturas e dinâmicas, o grupo ao vivo soa grandioso e intenso; em meio a projeções de imagens compiladas sistematicamente, as músicas são tocadas de forma sequenciada, sem pausas, como se fossem parte uma de grande trilha-sonora”.

Para compreender o que foi dito no inicio da matéria sobre o Alcest, na edição de 2014 o show dos franceses não foi dos melhores, repleto de problemas técnicos que prejudicaram a experiência como um todo. Dessa vez se viu o total oposto, tudo estava impecável. Bom, seria uma heresia que não estivesse, já que a proposta seria executar o aclamado álbum Écailles de Lune na íntegra. Sucesso. Desde a primeira nota, as comoventes frases de guitarra, que são a tônica das canções, brilharam a cada faixa, sustentadas por uma cozinha única e pelos tão únicos quanto, vocais de Neige. Com seu semblante sempre sereno e característico, o frontman parecia surpreso com a receptividade e carinho dos fãs, que não pouparam emotividade e acompanharam cada canção, em momentos de absoluta transcendência diante de uma performance tão etérea. Além das faixas do citado trabalho, as obrigatórias (e que levaram muitos à um novo nível de emoção, inclusive essa que vos escreve), Autre temps e Là où naissent les couleurs nouvelles, Les Iris e Souvenirs d’un autre monde e a derradeira Délivrance, das obras primas Les Voyages De L’Âme (2012), Souvenirs d’un autre monde (2007) e Shelter (2014), respectivamente. De longe, um dos melhores momentos do evento, e talvez de todas as edições do OMF até aqui, além de um grande alívio para os fãs de Alcest, que dessa vez lavaram a alma apropriadamente.

O cansaço começava a dar sinais. Um Carioca cheio, quente, ansioso. Mas nem a fome, nem aquela sede de tomar uma cerveja, nem a canseira das filas ou a vontade de ir ao banheiro acumulada, impediram os fãs do Katatonia de tirar o máximo de um reencontro que levou cinco anos para acontecer. Muitos ali viam seus ídolos pela primeira vez, e isso torna a coisa muito mais especial. Mas acredito que todos sentiram o mesmo quando finalmente surgiu no palco, descortinados lado a lado, o quinteto formado pelo vocalista Jonas Renkse, Anders Nyström (guitarra), Niklas Sandin (baixo) e pelos novatos Roger Öjersson e Daniel Moilanen, guitarra e bateria, em respectivo, sob o som dos teclados que introduzem a nova Last Song Before The Fade, faixa do mais recente álbum The Fall Of Hearts (2016). Uma escolha enérgica, que deu aquela injeção de ânimo em qualquer um que já pudesse estar esmorecido de cansaço. E assim se mantiveram as energias até o final das duas horas de setlist que os suecos haviam preparado especialmente para o público paulista. E que setlist, diga-se! A execução seguinte com Deliberation, do aclamado The Great Cold Distance (2006), instalava o transe com sucesso dentre os fãs, que não perdiam uma vírgula das letras e não hesitavam em explodir em coros nas principais passagens dos clássicos obrigatórios como Dead Letters, Teargas, Criminals, Soil’s Song, The Racing Heart, Leaders, Buildings, In the White e Forsaker. Isso para não citar o set inteiro. Para a alegria dos fãs mais antigos, as diversas faixas consagradas foram colocadas em prioridade, mescladas com apenas algumas no novo álbum, que também é uma grande obra e não poderiam ser deixadas de fora as ótimas faixas Serein e Old Fall Hearts. Nada mais justo após uma espera tão longa. Por alguns instantes era quase difícil de acreditar que se estava ali, cantando junto aos ídolos tantas letras que fazem muito parte de diversos momentos de vida.

O ritmo da apresentação se manteve sem oscilações e a presença de Jonas não diferiu muito do seu usual, sempre entregue à sua função e ainda em ótima forma vocal (sem referencias engraçadinhas aqui), mantinha uma postura polida, agradecendo e dispensando palavras gentis aqui e ali. Os novos integrantes parecem tão intrínsecos à sonoridade do conjunto que só resta deixar elogios. E mais rápido do que qualquer um gostaria, o reencontro histórico seria encerrado com a trinca detonadora de corações My Twin, Lethean e July, cantada a plenos pulmões pelos fãs uma última vez.

Chegara ao fim mais uma edição de sucesso do OMF, e finalizo a matéria assim como a comecei: “O que será que vão trazer agora? Tem como ser mais épico do que isso?”. Esperamos que sim.

 

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