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ENTREVISTA: DANIEL GILDENLÖW – PAIN OF SALVATION

Postado 20 de agosto de 2012 às 05:41

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Por Marcelo Cabral e Bárbara Ladeia

A criatividade do Pain of Salvation é diretamente proporcional ao bom humor de seu frontman, Daniel Gildenlöw, quando fala de seu trabalho. As questões pessoais e as complexas reestruturações no lineup da banda não parecem angustiar o músico. Hoje, com 39 anos de idade e 28 de estrada, Gildenlöw se diz seduzido pelo impossível. Em entrevista exclusiva ao Hard and Heavy, Gildenlöw fala sobre a integração dos novos membros da banda, o processo criativo de suas letras melodias e questiona os impactos da revolução digital no mercado fonográfico internacional, além de sua expectativa para os novos shows no Brasil, em setembro, na turnê do álbum maisa recente, Road Salt Two.

 

Como foi a última turnê? Gustaf, Ragnar e Daniel Karlsson estão bem adaptados ao grupo?

Daniel Gildenlöw: A turnê de primavera foi ótima. Ragnar se harmonizou melhor do que eu esperava, considerando a tarefa difícil que tinha em mãos. O Johan Hallgren é não só um grande cantor e guitarrista, mas também um grande personagem e showman no palco, mas Ragnar é um músico tão incrível que, assim como eu, começou a fazer música em uma idade muito precoce e tem sido impulsionado pela sua paixão desde então. Gustaf e Daniel têm uma história com Pain of Salvation: Daniel tocava baixo em nossa última turnê na América do Sul e os teclados na Índia. Gustaf era o baixista da banda antes de Kristoffer antes, no início dos anos 90, e é de longe o baixista mais habilidoso que já vi e com quem eu já tive o prazer de tocar. Então, quando testamos nossas asas na nossa primeira turnê na primavera deste ano, descobrimos que poderíamos fazer um vôo rápido e preciso na primeira tentativa. Descobrimos também que poderíamos acrescentar músicas para o setlist que nunca tínhamos tocado antes.

As condições eram quase impossíveis. Digo, estávamos em turnê com o Opeth até dezembro, e entre show e load-out fizemos o nosso melhor em testes de guitarra no meu laptop, para que pudéssemos planejar e configurar testes para final de dezembro, apenas uma semana depois do fim da turnê. Foi uma corrida selvagem, com uma turnê no início da primavera já reservada para janeiro e fevereiro. Mas eu prospero na impossibilidade, ansioso para mostrar que ela está errada. Já disse uma ou duas vezes que não aprendi a sutil arte da desistência (risos).

Olhando para trás agora, pareceu realmente um plano insano. Johanna e eu tivemos nosso terceiro filho no último outono e só isso já teria sido motivo para a maioria das pessoas sãs evitar a turnê nesse período. Quando Morris chegou, estava duas semanas atrasado e nasceu com Síndrome de Down, o que nos manteve no hospital por três semanas em um constante estado de agitação interior. Quando saímos do hospital, eu tinha três dias até o começo das turnês. Totalmente insano. Além disso, todos nós sabíamos que seria a última turnê do Johan, o que também aumentou a confusão emocional e o estresse, é claro. Estava propenso a cancelar os shows de primavera e simplesmente desistir. De certa forma, Fredrik pode ter salvado a banda pela sua desistência. Ele empurrou as perspectivas futuras de improváveis para impossíveis e, como mencionei, a impossibilidade me move. Rebeldia pura, eu acho.

O Pain of Salvation é famoso pela a troca de membros. Mesmo Johan Hallgren, que era amado pelos fãs, deixou a banda no início deste ano. Por que isso acontece tanto com vocês?

Daniel Gildenlöw: Eu não sei. As pessoas mudam, formam famílias e chegam a conclusão sóbria e sensata que a indústria da música é dura e exigente. Eu teria abandonado a música anos atrás se tivesse essa conclusão dentro de mim. Mas simplesmente não pude – e algo relacionado à paixão. Na verdade, não é que eles que deixaram o grupo, mas eu que fiquei demais.

Uma coisa que pode valer a pena manter em mente é que nós estamos nessa há um bom tempo e poucas bandas sobrevivem tanto sem mudar seus membros – a menos que tenham um sucesso comercial imenso e contínuo. Sim, ele ajuda no longo prazo. Tocamos sob a bandeira do Pain of Salvation desde 1991 – antes disso, sete anos como Reality. Ou seja, são nada menos que 28 anos! Cambaleio só de ler isso (risos). Digo, os Beatles duraram, o que… 8 anos? De certa forma, pode-se dizer que somos um desses casamentos saudáveis que tem o amor como uma premissa. Quando as pessoas perderam a fagulha que tiveram no início, tem a bela cortesia de abandonar o relacionamento, pois eles acreditam que a paixão é crucial para a alma desta banda.

Você visitou o Brasil duas vezes, incluindo a turnê do Road Salt One, no ano passado, justamente no seu aniversário. O que você lembra dos shows e o que você espera para os próximos?

Daniel Gildenlöw: Ah, o show de aniversário – foi uma bela surpresa! No meio de uma música o resto da banda parou de tocar – no grito mais alto de Nightmist – e um bolo foi trazido ao palco e tudo mais (risos). Aquele foi um grande momento! Depois do show, eu continuei recebendo outras homenagens também. Enfim, sempre fomos muito bem tratados e apreciados no Brasil e as multidões são enormes. Tenho certeza que o line-up atual vai estourar e teremos um ótimo tempo juntos. Estou realmente ansioso por isso.

(foto: Daniel assoprando as velinhas em seu aniversário no Brasil!)

Você ainda toca com o The Flower Kings? Você tem algum outro projeto paralelo ao Pain of Salvation?

Daniel Gildenlöw: Não, o Flower Kings  foi há muito tempo. Tenho sido um membro de turnês do Transatlantic, como muitos fãs já devem saber, o que tem sido muito agradável. Fora isso, tento ser seletivo com relação aos projetos aos que sou convidado, uma vez que tenho pouco tempo disponível para outras atividades. Há dois álbuns que eu posso estar fazendo em breve para outras bandas. Além disso, Ragnar e eu temos falado em fazer algo juntos. O tempo dirá.

 

Quais são os planos para a banda? Você já começou a pensar no sucessor de Road Salt Two e em quais os tópicos que você quer abordar no próximo projeto?

Daniel Gildenlöw: Existem alguns tópicos que sempre surgem com o Pain of Salvation – política, adolescência, religião e sexo. Guerra, sociedade e meio ambiente dentro de política. Acredito que tudo isso, no final, acaba ficando no escopo da filosofia. A perda é sempre um tema importante, mas é uma nuance que pode ser aplicada em todas as anteriores, certo? A perda é sempre o tema mais importante, mas é mais uma nuance que pode ser aplicada a todas as anteriores? Precisamos de um sistema de organização aqui, isso está ficando muito confuso…

Acho que vou apenas dizer o que eu sempre digo: não tenho ideia do que vai acontecer. Se o passado é uma orientação – e geralmente é – vou me surpreender tanto quanto os fãs e a imprensa. No entanto, gostaria de manter os nervos da intimidade, nua e crua.

 

Road Salt Two traz um pouco mais de peso que o álbum anterior. É um rompimento frente ao que trouxeram no Road Salt One? Você consegue ver mais pessoas interessadas no som da banda agora?

Daniel Gildenlöw: O Road Salt Two é mais pesado que seu antecessor. O som é basicamente o mesmo, porém a progressão entre os álbuns não é de modo algum um meio de atrair multidões. Até onde eu entendo, simplesmente fizemos dois álbuns brilhantes nem pensar nas consequências – a mesma linha de raciocínio que norteou o Perfect Element e o Remedy Lane (fomos fortemente desaconselhados a dar continuidade nesses dois álbuns no passado, imagine). Estamos em um estado de permanente mudança, ou seja, perdemos alguns fás, ganhamos outros e outros ficam por toda a nossa trajetória. Esses são os que mais amamos, é claro. Eles são fãs com a mente verdadeiramente aberta e com real coragem.

A faixa Healing Now tem uma pegada espanhola, enquanto Of Salt tem algo muito semelhante às flautas indígenas latino-americanas. Em que fontes você busca referências? Há algo no Brasil que te inspire?

Daniel Gildenlöw: Eu colho sons e emoções de todos os lugares. Vejo muito folclore sueco e algumas notas de bluegrass lento em Healing Now. Algo que eu queria buscar na música brasileira e do leste europeu – além do espanhol, como mencionou – é a honestidade. A sensação de que a música e o canto ainda são importantes para expressar os sentimentos e o coração. Tudo o que está guardado pode, a qualquer momento, explodir em um belo pássaro ferido que está autorizado, ao menos por um breve momento, voar livre, nú e exposto. Sinto falta disso na música europeia e nos estilos mais modernos.

 

O que interessou em artes circenses para trazer esse elemento para o álbum em Break, Darling, Break? Este trabalho cênico de vocês está cada vez mais evidente, especialmente após o Be. Até que ponto você está disposto a cruzar as formas de arte em seu trabalho?

Daniel Gildenlöw: Nosso próximo passo será trazer elefantes ao palco e ensiná-los a cuspir fogo. Nós, então, apareceremos em cima dos elefantes e pularemos em uma enorme piscina de agua, onde nossos instrumentos estarão sendo tocados por golfinhos amestrados. Agora estamos estudando golfinhos geneticamente para fazê-los ganhar polegares opositores. Caso contrário, a coreografia tende a ser um tanto improvável. (risos)

O drama bem-humorado sempre foi um traço meu – embora existam pequenas marcas de humor em todos os discos, desde o pequeno falsete em jazz em To The End, do Entropia, até o diálogo no carro no Be e também em Disco Queen, no Scarsick. Para mim, Break Darling Break não tem nada a ver com o circo em si mesmo – é apenas um filho torto e bastardo de Sleeping Under the Stars and If You Wait. Para responder a sua pergunta em sua totalidade – Eu adoraria cruzar todas as formas de arte, tanto quanto for possível. É apenas essa questão pouco de tempo e dinheiro, como de costume.

 

Muito tem sido dito sobre o amadurecimento das letras em Road Salt Two. Que características você acha que foram mantidos na construção de suas letras? O que você acha hoje da melancolia do Entropia e toda a paixão do Lane Remedy?

Daniel Gildenlöw: Sempre gasto muito tempo e energia em minhas letras. Eu posso lutar por semanas, ou meses ou mesmo anos para encontrar formas alternativas de expressar as coisas da maneira “certa”. Nunca vou me contentar com uma letra funcional e, se eu sentir que ela está ok, vou continuar trabalhando nela. Meus heróis na escrita das letras são Simon & Garfunkel, mas minhas balizas líricas são frequentemente encontradas na literatura ao invés da música. Sempre giro em torno da simplificação, ou da poesia. Fico muito impressionado quando alguém consegue dispor algo muito complexo em uma linha simples, perfeita, sem exagerar com pompas e adereços. Também amo a arte da poesia sutil e intrincada. O que quer dizer que, se for necessário exagerar nos textos, é preciso que ele seja muito equilibrado e belo, com ambição e honestidade em cada palavra. Acho que ambas as modalidade de poesia são válidas desde que apresentadas com honestidade e transparência.

Foi um longo caminho para chegar até esse ponto. Tive essa abordagem em minhas composições em todos os álbuns. A depender da música e da energia, decido qual a metodologia a ser utilizada em cada música e em cada letra. Nos álbuns Road Salt, eu quis buscar tons de terra para as letras. Nesse aspecto, eles tem muito em comum com o The Perfect Element e com o Remedy Lane. No entanto, também tem a crueza herdada do Entropia.  Olhando para trás, tenho alguns momentos em que me pergunto “o que estava pensando lá”, como qualquer outra pessoa. Mas desde que criei este conjunto de regras para o meu processo criativo, me vejo mais vezes surpreso com as estruturas complexas das letras – algo como “eu realmente escrevi isso?” e sinto orgulho. Enfim, prefiro as obras posteriores, mas não tenho um favorito entre todos os álbuns.

Em todo o seu trabalho, qual álbum você considera mais transgressor?

Daniel Gildenlöw: Se você quis dizer corajoso ou revolucionário, eu diria o Be, uma vez que ele traz uma série de pensamento originais e desafiadores quanto à ciência, religião e evolução. Tenho uma abordagem bastante eclética, então todos os álbuns contêm uma grande quantidade de diferentes gêneros e estilos. Eu me forcei a repetir isso ao longo dos anos, então hoje eu tenho procurado resumir as canções aos seus próprios elementos – antes talvez eu tivesse misturado tudo na mesma canção. Para exemplificar, é possível dizer que troquei Zappa pelos últimos sons dos Beatles (risos).

 

O formato do mercado de música mudou drasticamente com a internet. O que você acha sobre a situação atual e onde você acha que isso vai chegar?

Daniel Gildenlöw: Estamos entre dois paradigmas e a indústria está sangrando através de cada abertura. Isso significa que os artistas estão sangrando muito, ainda que alguns de nós tenham menos consciência disso do que outros. Nesse processo de mudança de átomos para bits, o valor da música foi esquecido, ficou invisível. Dessa forma, as pessoas sentem que elas têm o direito de música livre. Eu costumo dizer que eu concordo 100% com esta visão, contanto que eu possa aplicá-lo aos carros Mustang também.  O raciocínio é lógico: se eu não posso pagar por um, isso não me dá o direito de ter um.  A menos que nos empenhemos em reescrever tudo sobre estrutura social (não que não seja necessário reescreve um manifesto enorme de como o mundo deve funcionar, uma vez que hoje é uma porcaria e injusta de diversas maneiras). Mas é vital lembrar que defender a música como forma de arte é pagar e apoiar os artistas que gostamos.

Os problemas da revolução digital são muitos, bem como seus benefícios. Primeiro de tudo, a indústria é obrigada a se tornar mais ágil e expelir os produtos mais rapidamente para compensar a diminuição de renda por produto (mais quantidade que qualidade), ou seja, abandonar muitos artistas para privilegiar os que são mais comerciais. A cena musical tende a virar mais entretimento, assim como a arte e a literatura no passado. Claro que a cena se abre para o novo e fresco que anteriormente não encontravam gravadoras.

Vamos colocar dessa forma: vamos ter mais Lady Gagas e mais adolescentes que escrevem músicas no computador nos porões de casa, mas o meio termo tende a sofrer mais, uma vez que devem caminhar pelo seu próprio caminho passional. Mais e mais, os grandes músicos vão querer trabalhar em grupos que compõem ou como músicos de estúdio. Espero que isso mude conforme o mundo online construa sua estrutura. Vou sentir falta dos átomos – os produtos com pensatas, com arte densa e belas embalagens.

Para o Pain of Salvation, especificamente, e com foco no Brasil, há alguns resultados de fácil análise que derivam desses novos tempos. Se tivéssemos vendido mais álbuns no Brasil, certamente teríamos mais turnês ao longo dos anos – sem números de venda como orientação, os organizadores não correrão o risco de trazer uma banda de novo. Por exemplo, a primeira vez que viemos ao Brasil, tivemos mais fãs que foram ao primeiro show do que o número de vendas em toda a América do Sul. Sem os downloads ilegais, alguns membros da banda teriam ficado mais tempo na banda. Não digo que eles estavam no projeto pelo dinheiro – todos nós estamos nesse caminho de paixões e visões – mas há um limite da disposição de se entregar à paixão quando há filhos e famílias. Mais cedo ou mais tarde chegamos à dolorosa conclusão de que os empregos mais comuns na Suécia vão oferecer um rendimento melhor e mais estável. Se apenas um terço dos downloads ilegais tivessem sido vendidos, teriam feito uma enorme diferença para nós, individualmente, na banda. Isto é um fato.

 

Gostaria de acrescentar alguma coisa?

Daniel Gildenlöw: Bem, nosso filho caçula, o jovem Morris (sentado no meu colo) parece querer acrescentar algo. Então aqui está ele: cx g TGG vb vvvbm n, z. (Garanta a menção a ele na entrevista).

 

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